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Publicado em:27/07/2016
:: Justiça :: Renato Zupo e o terrorismo no mundo, a desglobalização e a punição ao terror

Agora, qualquer maluco do mundo com acesso à internet e à ideias terroristas sai matando, de carro bomba, de caminhão ou a pé

Os atentados se sucedem no primeiro mundo e o apavorante é que não são mais organizados por entidades extremistas com apuro técnico e anos de planejamento, como ocorreu em 11 de setembro com as torres gêmeas de Nova York.

Agora, qualquer maluco do mundo com acesso à internet e à ideias terroristas sai matando, de carro bomba, de caminhão ou a pé, e nos sentimos todos devassados e indefesos, porque de fato é esse o grave problema com o terrorismo: o inimigo pode estar a espreita na casa ao lado, pode ser o garçom que te serve o cafezinho, ou a morena da fila da padaria. Você não sabe. Ela pode estar com um cinturão de bombas ou pode ser uma agente adormecida da Al Qaeda, mantida no país alvo por anos à fio até se tornar uma nativa sem sotaque, quando então é acionada por seus califas e gurus e inicia o morticínio impiedoso, multiforme, plural, que alcança crianças indefesas e destrói famílias que nunca ouviram falar de islamismo e que acham que \"Jihad\" é o nome de algum doce árabe.

Sua única saída para escapar do terror é morar em um país tão pobre que nem extremistas queiram dele saber, ou viver isolado do mundo e no meio do mato, sem acesso às mazelas e azares globalizados. Fora isso, amigo, você é um alvo, como os americanos do World Trade Center, em Nova York, ou os franceses do Bataclan, em Paris. Um mundo que perde fronteiras, as perde para o bem e para o mau.

Desglobalização

Numa das inúmeras convenções republicanas que indicaram Donald Trump como candidato à Casa Branca, uma eleitora e fã do magnata americano explicou como defende a política extremista do candidato, que pretende fechar as fronteiras dos EUA aos estrangeiros hostis: Não há país sem fronteiras.

Por conta da globalização, nos iludimos em viver em um mundo sem fronteiras. Agora, o Estado Islâmico demonstra que é uma doce ilusão crer que todos pensamos igual, que todos estamos bem e somos amiguinhos uns dos outros e que o planeta Terra é um campo fértil para a solidariedade entre nações amigas. Isso não existe, só em um mundo ideal que está muito longe de ser criado. Há gente ruim pra todo lado, religiões e governos despóticos, paranóicos e fanáticos religiosos propensos a destruir o vizinho simplesmente pelo crime hediondo de que o vizinho pensa diferente, ou é mais rico, ou mais bonito.

Gente assim ainda está na idade da pedra, não se civilizou, e abolir fronteiras diante de tamanha hostilidade significa abrir as portas do galinheiro para a raposa. O mundo que se globalizava vai ter que se fechar mais e mais por conta da Guerra ao Terror - e Trump, com toda sua megalomania, está muito mais próximo da verdade do que Obama e François Hollande, que considero dois políticos frouxos na contenção da violência extremista.

O mundo da moeda única, das aduanas livres e do idioma universal já era. A Europa, que se abre para gente de todos os cantos do globo, indiscriminadamente, vai ter que aprender a se fechar como os Estados Unidos. Como uma ostra que guarda e não ostenta as pérolas que carrega em seu bojo.

Punição ao Terror

O Estado Islâmico, o Talibã e tantos outros grupos extremistas islâmicos põem em xeque o Direito Penal internacional. O Direito de punir dos estados foi expandido após a segunda guerra mundial visando punir nazistas sobreviventes que agiam conforme as leis esdrúxulas do estado Alemão.

Dali em diante o mundo viveria sob um conjunto de regras que transcenderia a soberania, as fronteiras e os territórios dos países, para afetar cidadãos e nações independente de suas leis internas. Foram criados os crimes contra a humanidade, cuja lista é encabeçada pelo terrorismo e pelo genocídio. Exemplo recente? O ex-presidente peruano Mario Fujimori foi condenado por um tribunal internacional por forçar mulheres pobres à laqueadura durante seu governo. Está cumprindo pena, proibido de pisar no país de origem enquanto está recluso.

Com os membros do Estado Islâmico é inútil, porque são apátridas. Não conhecem o conceito de torrão e terra natal por isso não se importam em ser deportados. Se contextualizam uma religião em que é honra morrer e matar pelo Islã, como intimidá-los com leis, castigos, punições?

Lhes basta poder rezar para Alá e ajoelharem-se curvados à Meca, aguardando suas quarenta virgens no mundo do além, então que se danem prisões e condenações. Entenderam?

Não temos moeda de troca com esses caras. É impossível intimidá-los, e a intimidação sempre foi o principal conceito em torno do Direito Penal, do crime, da pena e do castigo. Punimos alguém como exemplo para que o mal não prolifere. Com os fundamentalistas, no entanto, a pena branda ou rigorosa pra eles é café pequeno, é um detalhe insignificante.

Um amigo árabe muçulmano me relata que os homens bomba terroristas são considerados heróis nacionais em países menos ocidentalizados do mundo árabe. Nem a morte põe medo nessa turma.

Renato Zupo
Juiz de Direito e Escritor
Justiça
Renato Zouain Zupo E-mail: Colunista desde: Agosto/2005 Juiz de Direito