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Publicado em:16/06/2015
:: Justiça :: Renato Zupo em: A banalização do mal e o homem comum e o gênio

A humanidade é assim mesmo, tola e apaixonada, irracional e adepta dos conceitos e pré-conceitos prontos

Adolph Eichman foi um dos últimos criminosos nazistas a ser encontrado foragido na América do Sul e levado preso para julgamento no recém criado Estado de Israel, onde acabou condenado à morte e executado. A filósofa judia Hannah Arendt assistiu ao julgamento e com base nele, e em Eichmann, publicou sua tese da \"Banalização do Mal\".

Ela viu no criminoso nazista, e todos nós veríamos se lá estivéssemos, a figura clássica do servidor público comum que simplesmente seguia ordens, por mais atrozes e hediondas fossem. Eichmann não era um psicopata ou um cara mau, mas apenas um sujeito que dançava conforme tocava a música nazista de Hitler, seu comandante supremo, à época.

Como ele, a maioria dos alemães simplesmente assistia passiva, ou participava friamente, daquilo que era considerado normal e correto pelo partido nacional socialista alemão (nazista). Nisso os guetos, os campos de concentração e de extermínio de judeus, simplesmente aconteciam e eram relevados, ou considerados consequências comuns da guerra.

A genialidade da tese de Hannah Arendt consistia em ver nisso o fato comprovado de que o mau, na verdade, está ao alcance de todos nós, dependendo apenas do incentivo e da ocasião, ou mesmo da moda ou da política. A filósofa, por ser judia e dizer que quaisquer de nós poderíamos participar ativamente do holocausto de nossa raça, bastando-nos a oportunidade, quase foi também ela ideologicamente executada, considerada uma traidora de seu povo israelense.

A humanidade é assim mesmo, tola e apaixonada, irracional e adepta dos conceitos e pré-conceitos prontos. Ao execrar alguém que pensa diferente e acha que o nazismo pode ser corriqueiro, a comunidade judaica demonstrou justamente o acerto da tese de Arendt, da banalização do mal, porque foi discriminando os diferentes que Hitler dizimou milhões.

O homem comum e o gênio

Pouco tempo depois, veio a redenção de Hannah Arendt. Segundo ela, se poderia culpar Eichman, criminoso comum, homem com olhar de asno e um servidor público cumpridor de ordens, simplesmente como uma pessoa comum que foi vítima do Estado Nazista. Aliás, na época a lei alemã a que ele obedecia determinava que se cumprissem cegamente as ordens de Hitler - então, nem legalmente criminoso Eichmann era.

No entanto, foi condenado à morte e executado. Então surgiu o filósofo Martin Heidegger, um dos mais brilhantes do Século XX, dono de um raciocínio crítico prodigioso e reitor da mais famosa universidade da Alemanha Nazista. Foi nomeado reitor pelo próprio Hitler e em seu discurso de posse enalteceu a teoria da supremacia racial ariana e a perseguição aos judeus. Finda a guerra, seu discurso chegou às mãos dos aliados e dos judeus que sobreviveram ao Holocausto. Nada foi feito com Heidegger. Não foi processado ou condenado, nada.

O engoliram e perdoaram, porque era um gênio, assim como o fizeram com vários físicos nucleares alemães que acabaram repatriados para os Estados Unidos para ajudar na corrida espacial tão logo iniciada uma outra guerra, a \"fria\", contra a extinta União Soviética.

Hannah Arendt concluiu disso que não há explicação plausível para se jogar no banco dos réus e, depois, no patíbulo, o funcionário executor de ordens, e nada fazer com o ideólogo brilhante que legitima por meio da ciência, de um jeito ou de outro, a essas ordens, ou as viabiliza. Considerou, por outro lado, muito pior o cidadão brilhante, o cientista que, dotado de raciocínio poderoso e senso crítico, simplesmente opta pelo mau, possuindo alternativas para não fazê-lo, possuindo discernimento para detectá-lo.

Acrescente-se a isto o fato de que, tão comum e corriqueira a opção pelo mau que todos nós, os cultos e os desprovidos de inteligência, os pensadores e os débeis, os ricos e pobres, todos nós podemos a um certo tempo da vida optar pela trilha mais escura da delinquência e do terror. Não é possível, para Arendt, considerar o malfeitor um extraterreno diferenciado dos restantes de sua espécie. O mau está no meio de nós.

Extermínio dos diferentes

Estão acabando as diferenças, e o fato de se execrar a um filósofo por conta de sua discordância daquilo que é vulgar, caso de Hannah Arendt com sua teoria da banalização do mal, apenas demonstra que a sociedade se desumanizou a tal ponto que não percebe e nem respeita mais ao \"outro\", que é diferente de cada um de nós.

Podemos ser livres, desde que façamos as mesmas coisas, pensemos do mesmo jeito, tenhamos o mesmo credo. Senão, somos hostilizados. Viram como é fácil ser malvado? Basta seguir a manada de gente politicamente correta e jogar pedras no restante da humanidade, que tenta pensar.

Renato Zupo,
Juiz de Direito.
Justiça
Renato Zouain Zupo E-mail: Colunista desde: Agosto/2005 Juiz de Direito