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Publicado em:01/07/2014
:; Coluna Justiça :: Renato Zupo em Vira Latas metidos a besta e a Copa em nossa Casa

O dramaturgo Nelson Rodrigues. Foto Reprodução

Vira Latas metidos a besta

Nelson Rodrigues foi o maior dramaturgo de nosso país e também era um cronista visionário do cotidiano das grandes cidades, enxergando como ninguém aos conflitos humanos e a degradação moral das famílias.

E o autor da série “A Vida Como ela é” e das peças “Vestido de Noiva” e “Toda Nudez será Castigada” dizia, portanto, com bastante conhecimento de causa, que nós brasileiros temos o que ele chamava de “complexo de vira latas”. E explicava: somos vira-latas porque temos a mania de achar que tudo o que fazemos é errado, que as coisas em nosso país nunca dão certo e o que ocorre em terras estrangeiras e com gringos é sempre melhor do que as coisas e pessoas brasileiras, onde tudo tende a dar sempre errado.

Quem sou eu para questionar o velho mestre Nelson Rodrigues. Apenas gostaria de acrescentar ao seu pensamento, atualizando-o, que hoje o brasileiro talvez permaneça com aquele velho complexo de vira-latas, mas aperfeiçoou-o.

Agora, é o vira-latas metido à besta, aquele que glorifica a burrice e que acha bonito e normal a baderna e a pobreza cultural. Vê como uma banalidade a insegurança pública e a profunda crise de credibilidade institucional em que nos metemos, acha ruim, mas tudo bem, porque temos copa do mundo, cachaça e futebol. Afinal, Deus é ou não é brasileiro?

Dando em nada

Por falar em Deus, graças a ele nossos transgressores não são inteligentes, em sua enorme maioria. Se fossem, a sociedade inocente e civilizada estaria perdida, porque o crime (mesmo burro) consegue ser mais organizado do que algumas de nossas instituições públicas.

Os poucos que leem estas linhas de maneira fiel devem se recordar do meu alerta aos manifestantes, black blocks e representantes de movimentos sociais mais aguerridos, por ocasião do término da Copa das Confederações: que tomassem cuidado com a opinião pública.

Olhando-se a história política recente da humanidade, não se vê nenhuma revolução de armas ou ideias que deu certo sem apoio popular. Fidel só tomou Cuba graças ao povo, os militares só impuseram seu regime no Brasil de 1964 graças ao apoio das massas conservadoras e à omissão de setores progressistas – e então, de qualquer forma, e por ação ou omissão, tinham a força popular a salvaguardá-los.

Passado o já famoso “Julho de 2013”, avisei aos incautos manifestantes que o público ia cansar, que os heróis iriam virar bandidos e pagar mico. Basta conferir, e é o que aí está: todo mundo preocupado com Copa, pai tirando filho de tumulto e manifestante tomando ovada e tomate podre de torcedores. É claro que, no período de tempo entre uma copa e outra, houve uma pedra no meio do caminho: a morte de um cinegrafista, um jornalista, um formador de opinião, o que acelerou o descrédito das manifestações.

Aos transgressores, resta o arrependimento. Se tivessem parado com sua deletéria manifestação de força ainda no ano passado, poderiam ser mártires, símbolos da nação, ou coisa que o valha, porque a gente gosta mesmo de criar heróis, quer eles mereçam ou não. Continuaram, mataram um cinegrafista, atrapalharam quem veio para a copa torcer, ou quem está aproveitando a copa para ganhar dinheiro, e então de mártires viraram trapalhões.

Perderam o bonde da história. E pior: estão detonando o atual governo federal, que muito os beneficia com o espetáculo da impunidade.

Copa em casa

Não que Copa do Mundo em casa seja bom. Estou descobrindo que é péssimo, só é bom para quem consegue ir aos estádios.

Como nós brasileiros pagamos por uma festa a que não fomos convidados e da qual só participaríamos gastando muito dinheiro, ficamos de casa assistindo aos jogos pela TV, como se o torneio passasse em algum país remoto. Enquanto isso nos sobram feriados indevidos, setores públicos travados e um transporte caótico e repleto de greves.

Copa em casa é igual colação de grau: só é bom para quem participa do evento.

Renato Zupo,
Juiz de Direito
Justiça
Renato Zouain Zupo E-mail: Colunista desde: Agosto/2005 Juiz de Direito