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Publicado em:16/05/2014
O Poder da Cultura e Os Pobres de Hoje. Vale Conferir...

Renato Zupo

No final do Século 19 o idioma inglês era como o alemão: uma língua periférica, falada apenas nas ilhas britânicas e em suas colônias. Muito embora a Inglaterra fosse a maior potência econômica e militar do mundo, seus costumes e tradições não ultrapassavam os limites da distância de uma bala de canhão.

O mundo inteiro falava o idioma francês, Paris ditava a moda e a educação de qualidade restringia-se às instituições ligadas à igreja católica. De lá para cá, os Estados Unidos aconteceram. Com seus filmes, músicas e sua literatura, transbordaram as fronteiras físicas e ideológicas do planeta e passaram a orquestrar o jeito de ser e de viver do mundo ocidental civilizado.

Hollywood e o Rock tornaram o idioma inglês a segunda língua dos jovens, e o folclore e os costumes ingleses e americanos passaram a ser seguidos, respeitados e conhecidos por todos. A diferença entre o Halloween deles e a nossa Folia de Reis não é uma questão de qualidade ou posição geográfica: na verdade os americanos tem arautos de peso para divulgar seu cotidiano, e nós não. Não investimos em cultura como deveríamos, e em educação muito menos.

Nossos estudantes assistem quatro a cinco horas de aula por dia, enquanto as crianças e adolescentes anglo-saxões ficam na escola o dia inteiro. A influência da cultura americana é tão grande que já se cunhou a expressão \\\"American Way of Life\\\" para designar o jeito deles de ser e de viver. Aliás, nossos vizinhos do norte, se não nos invadem por meio de guerras, culturalmente já nos dominaram. Somos colônia americana até no jeito de falar: pen drive, smart phone, recall, são expressões deles que plagiamos simplesmente porque nosso idioma não é mais capaz de traduzir literalmente, e com nexo, palavras criadas em inglês e que, de tão usuais, foram adotadas por aqui.

Acho que foi Lênin quem disse temer muito mais Hollywood e seus filmes do que os canhões e bombas dos Estados Unidos. E nós brasileiros não valorizamos a cultura que temos e copiamos a dos outros. Resultado: somos contemporâneos de descobrimento dos americanos do norte, mas em desenvolvimento estamos uns cem anos atrás deles.

Os pobres de hoje

Tomando conhecimento da biografia dos jogadores convocados para a seleção brasileira e que jogarão a próxima Copa do Mundo, verifiquei um detalhe interessante: nenhum deles (isso mesmo: nenhum) é de família paupérrima, na linha da pobreza ou abaixo dela. Mesmo os mais humildes são filhos do que se denomina em economia de \\\"classe c\\\". Ou seja, seus pais eram assalariados e moravam de aluguel, pegavam ônibus para ir treinar, etc... Nenhum deles passou fome ou veio da seca ou da miséria, como antigamente.

Todos falam um português suficientemente bom e tem alguma cultura, que talvez tenham conseguido por conta de sua profissão. Antigamente, jogador de futebol era desdentado, chagásico, analfabeto. Os mais ufanistas e afoitos haverão de achar que os tempos mudaram e melhoraram. Acredito, porém, em outra verdade: nossos paupérrimos ainda existem, e são muitos, mas de uns tempos para cá nem as portas do esporte estão se abrindo para eles.

O miserável brasileiro de hoje não tem família e nem instrução alguma, vive esquecido pelo Estado e pelas escolas, e sua única saída é o crime ou o sub-emprego. Triste realidade.

Renato Zupo,
Juiz de Direito.
Justiça
Renato Zouain Zupo E-mail: Colunista desde: Agosto/2005 Juiz de Direito